Foram longos dias. Uns dez dias mais ou menos. Dez dias longe da yeshiva, de Jerusalém, de Trabalho, do conflito religioso que já faz parte do meu cotidiano. E vim me isolar aqui no meio do deserto, no Negev! Visão eu num tive nenhuma, mas que foi divertido e relaxante, isso sim foi.
Minha família em Israel eh bem interessante. Meu tio é um sabra típico. Lutou em varias guerras, ajudou a colonizar Israel, plantou, colheu e hoje sofre da síndrome de Mefaked (um comandante no exercito israelense). Geralmente a mulher dele é a tropa. Quando eu estive la fui integrado na tropa. Ken Ha Mefaked! (o Sim Senhor do exercito israelense). Já na casa dos seus sessenta e vários, meu tio num é de muitos amigo. Ele eh aquele velho lobo do mar, que anda mastigando uma folha, fuma e gosta de dar aquele tipo de lição "escute aqui rapazinho, quando você ainda usava fraldas eu já tinha conquistado todo o deserto do Sinai, a pé!"
A segunda mulher dele, minha tia, é um anjo. Muito fofa e apesar de só falar hebraico, fala comigo o tempo todo. Agitada, sempre correndo atrás dos netos, lavando a roupa do filho ou cozinhando pra mim! Me trata como uma se fosse minha avo. A família dela eh quase toda meio religiosa. Mas são os religiosos do tipo colonizadores de Israel. Vieram de Vilna na Lituânia, uma comunidade muito religiosa da Europa, famosa pelo Gaon de Vilna. Pra família dela ela é uma revoltada. Mas ela vai na sinagoga, come kosher, e guarda o Shabat da maneira dela. Um coisa assim "Spiritual but not religious".
Esse casal fofo mora no mesmo apartamento, no maior estilo casa da vovó, há quase trinta anos, bem no centro de Arad. E Arad é um lugarzinho interessante. Quase um Oásis cravado no meio do deserto, no meio do nada, perto de lugar nenhum. Pra chegar la, uma hora de estrada de Beer-Sheva, o pólo da região, com quase duas centenas de milhares de pessoas. Arad num tem vinte mil habitantes. Essa estrada eh só uma faixa cinza no meio do bege arenoso. Apenas algumas aldeias beduínas no caminho. Mas é um deserto diferente. Num tem aquele visual de Saara, que a gente tem na cabeça como "o deserto". Eh terra meio batida, dura, um monte de pedregulho, uma montanhas. Diferente, mas eh deserto árido, seco e que parece nunca acabar.
E esse pequeno vilarejo tem algo de especial, porque o Amos Oz que eh o escritor mais pop de Israel, escolheu morar la. Deve ser o silencio e o deserto. Porque nada eh melhor pra quem quer se distanciar do mundo do que o deserto. Um cara já fez isso há 2000 anos atrás. Parece que pra ele foi bem inspirador. De quase todos os lugares da cidade se vê o deserto. E se vê também a areia que cobre os carros, suja as casas, entope os sistemas de ar condicionado.
Quem nasce em Arad tem que sair de Arad pra fazer alguma coisa. Nesse sentido, conhecer gente que estava voltando a Arad pra passar o feriado com a família me lembrou Garden State . O dono de um dos únicos três pubs da cidade eh o Moe falando hebraico. Deixava o ar condicionado no mais quente pra a mulherada ficar com menos roupa. E o truque baixo dele funcionava.
Fora isso, um shopping com todo o básico da modernização israelense, um hotel três estrelas e um festival de musica anual. Nada mais. Essa eh a modernidade do deserto. Certamente não tão forte quanto a solidão deserto.
