Alguém precisa fazer isso. Porque religioso que é religioso não acende luz em sahbat, pede pra empregada acender (eu vi isso em São Paulo, não era nenhum rabino, mas eu vi). E dessa vez quem "acendeu a luz" fui eu. Vamos à história.
Já faz algum tempo que o tio Shaul vem me enrolando, e ele percebeu que o Etíope dele faz o dobro do trabalho pela metade do preço. Sendo assim, virei eventual, e bem, aqui não anda tendo tanto evento assim.
Quarta-feira, já contando moedinhas pra máquina de lavar, recebo essa notícia. Será que você pode ajudar a servir as seudot (refeições) de shabat? Aonde, quando e quanto? É Claro! A festinha era numa sinagoga próxima daqui, em Har Nof mesmo. Deveria servir o jantar de sexta-feira, o almoço de sábado e uma outra refeição que se come antes do final de shabat chamada Seudá Shlishi (a terceira refeição), que no final acabou nem precisando de ajuda. O pagamento, depois do shabat, afinal ninguém toca em dinheiro no shabat, era pra ser vinte e cinco dinheiros por hora. Precisava arrumar mais dois amiguinhos, completando uma equipe de quatro garçons disfarçados. Fácil fácil, afinal a maior parte do tempo passaríamos esperando. Pra mim era impossível recusar. Pra maioria da yeshiva era quase um absurdo sequer propor tal tarefa. Tive de cansar pra arrumar um amiguinho. Só o Daniel, gaúcho de trinta anos que mora fora da yeshiva topou. Mas pela falta de gente consegui negociar com o meu sinhô, um francês figura, um aumento de cinco dinheiros no valor da hora. Excelente!
O Daniel, mais preocupado com o problema de trabalhar no shabat, pediu que eu perguntasse na yeshiva sobre os problemas de fazer esse trabalho. Claro que existe uma brechá na lei judaica pra você trabalhar. Sabia que um outro bachur (menino em hebraico, mas sinônimo de estudante ortodoxo) aqui da yeshiva tinha feito isso há algumas semanas. Você tinah que trabalhar pensando que não ia ganhar pelo trabalho, fazer algum trabalho antes ou depois do shabat, enfim, burlar a lei.
Requisitos: ser judeu, afinal é shabat e você tem que entender o que está se passando; estar bem vestido, pra passar despercebido entre os convidados e ninguém perceber que você está lá pela grana mesmo; usar kipá preta (que eu nunca uso aqui), pra mostrar que você é haredí (ortodoxo) e está no meio dos "seus". A contragosto, e meio que como uniforme de trabalho, coloquei o terno, a kipá preta e fui-me à sinagoga onde eu ia trabalhar no shabat.
Começo desastroso. A Rabanit (mulher do rabino) só fala francês e hebraico. Pergunta se eu entendo francês. Oui! Não entendi bulhufas do que ela explicou. Le poison bla bla bla, le desert bla bla bla ici bla bla bla. Vou comrprix? Oui oui oui à la Homer Simpson. Sorte que o outro garçom era francês e arranhava um inglês.
A rigor comemorava-se o primeiro shabat após um casamento. Parte do que se chama de Shea Brachot (sete bençãos feitas durante sete dias aos noivos). Dez mesas formando uma ferradura com quatro mesas de homens num braço, o Rabino no meio, um outro rabino do lado dele, e depois o noivo, esse de mão dada com a noiva. Ai começam a outras quatro mesas das mulheres, francesas na maioria, algumas de peruca, outras de chapéu, todas muito bem vestidas e perfumadas.
No final todo o trabalho foi feito de maneira divertida. Eu e Daniel rimos muito, comemos bem e recebemos sorrisos picantes das francesinhas. À parte algumas bizarrices, por exemplo lavar pratos descartáveis pra serem reutilizados e uma carne imersa na gordura as refeiçoes foram bem normais (pro padrão israelense). Isso quer dizer que tinha Humus, berinjela e outras saladinhas, arroz, frango e garrafa de coca-cola na mesa.
Fiquei morrendo de vontade de fazer isso todo shabat. Paga-se bem, é divertido e pouqíssimo estressante. Agora, fazer isso e não acender a luz? Há alguma coisa de estranha na maneira ortodoxa de cumprir shabat. Continuo investigando.
