Depois de tudo, ir a Ramallah não foi tão difícil assim. Mas a guerra só termina quando você efetivamente volta. E voltar de lá tem sido um problema. É que os meus preconceitos em relação à Palestina, os que ainda existiam, ficaram no Checkpoit. Não dá pra passar pelo Checkpoit achando que você é o máximo, que nada daquilo é real. Só que não dá pra explicar isso pra juventude yeshivista aqui de Har Nof (bairro ortodoxo de Jerusalém onde eu moro) que vive trancafiada. Eles são as vítimas desse muro que cerca a Cisjordânia também. Agora é que eles não vão ter mesmo ideia do que acontece do lado de lá.
Conversando com um grupo de Mizrahim (religiosos, não-ortodoxos e sionistas), veio à tona a questão dos Checkpoints. Eu preferia fugir do tema, afinal eu sei bem a opinião deles, que são parte da direita israelense. Nem adianta discutir. Mas começaram a falar de Checkpoint, que era bom, que era necessário. Que só há segurança em Israel porque há muro e checkpoint. Que se não fosse por isso ia ter gente se explodindo por todos os lados. Tinha eu é que agradecer esses currais humanos. Eu preferi não dizer nada de muito político. É que estávamos na cidade velha, bem próximo à muralha que cerca a cidade. E de lá se vê boa parte da Jerusalém Oriental, área completamente árabe de Jerusalém. E de lá se vê a torre de pelo menos umas cinco mesquitas. Os árabes não estão todos do outro lado do muro.
E como me incomoda esse muro. É que de uma hora pra outra o muro virou a solução de todo o conflito árabe-israelense. Ilusão. É que de muro brasileiro entende bem. Não adianta fazer muro alto, cerca elétrica, andar de carro blindado. A violência está além das barreiras físicas. O muro não aprisiona os Palestinos, aprisiona os Judeus. Ou como dizia o Rappa:
"As grades do condomínio
são pra trazer proteção.
Mas também trazem a dúvida
se é você que está nessa prisão".
Pior mesmo é conviver com o preconceito de jardim. Os Mizrahim sustentam sua opinião na marra. Vão ao exército e põe a cara deles pra bater. Mas os ortodoxos que fazem parte dessa corda anti-árabe preferem ficar só na piadinha, sem ter coragem de enfrentar o que eles chamam de inimigo. Quase levei porrada na yeshiva, mas falei pro último que veio me dizer que queria queimar uma camiseta da Palestina no shouk (mercado) árabe Olha, se você quiser queimar vamos lá, eu te empresto o isqueiro. Mas se não for queimar, se num tiver balls pra isso, pára de me alugar que eu num preciso ficar ouvindo essas besteiras.
Fui grosso com o rapaz, eu sei. O cara era grande, mas a essa altura eu já estava de saco muito cheio. Fiquei imaginando o que aconteceria se eu aparecesse na yeshiva de camiseta "Free Palestine" ou coisa do gênero. Vou tentar a loucura. Se sobreviver eu conto a experiência.
