Sunday, September 07, 2008

Wild, Wild West Bank

Sentado num carro sem cinto. Um playboy árabe na direção . No rádio o Bon Jovi cantando " It's My Life". Um dia insano que começa a fazer sentido. Compreender ainda não, as armas que tenho não são suficientes . Um pouco de mais de clareza só sobre essa cadeia de eventos extremos , reveladores e aleatórios . Se eu tenho medo? "I just want to live when I'm alive"!

Manhã depois de Yom Kippur, Lyca, Taty e eu nos encontramos no centro do quarteirão judaico da cidade velha de Jerusalém. As mochilas delas eu deixo no Tio Reuven e de lá atravessamos o caos delicado do Shuk Àrabe em sua parte não-turística. Cruzamos o portão de Damasco e estamos na Tachaná Merkazit de Jerusalém Oriental , na verdade uma outra Jerusalém.

No ônibus 18, que faz Jerusalém-Rammalah , somos os únicos estrangeiros e as blusinhas com bermudas fazem um contraste pesado com o véu da universitária palestina. "Ele não de olhar!". Não Taty, não é encarando que a gente se resolve por aqui. Forço o sorriso amarelo e começo minha aprasentação turístico-trouxa-brasileiro . E já vemos agora o muro da Cisjordânia, que vai ficar ao nosso lado por vários quilometros. As meninas já estão perplexas, sacam dezenas de fotos e logo os colegas do ônibus começam a falar do muro. O menino de vinte- e-poucos-anos, bigode ralo e dentes podres, segurança da mesquita de Al Aqsa, fala em tom sério "fica tranqüilo, a gente ainda vai derrubar esse muro". Derrubar pra que?

Mas logo chegamos a Rammalh. E, ao contrário dos últimos meses, é um dia cinza. A comparação com o clima de barbárie da "25 de março " vem na hora . Só pra piorar acabamos de descobrir que era pleno Ramadã, ou seja, restaurantes fechados e policiamento ideológico ostensivo nas ruas. Afinal, é uma descortesia enorme comer em frente a quem está passando o dia em jejum.

Algumas horas pelas ruas e os posters de mártires pelas ruas assustam. Um pouco de compras é inevitável. Rammalah é 25% off em tudo. Mas é um outro país, outra cultura. Não pro dinheiro. Em Rammalah tem outlet da Fox e chocolate do Kibutz Yotvava no supermercado.

Mas o tempo passa. Já andamos por quase 3 horas e a fome bate. E com a fome vem o mau-humor. Pensamos em mudar de cidade. Hebron, Belém ou Nazareth? Qualquer uma, desde que tenha comida. E a estação das lotações de Rammalah é outro buraco sujo e escuro. Assustadora . É lá que descobrimos que qualquer uma dessas cidades está a pelo menos uma hora e meia de distância. Mudamos de idéia:  a fome é grande, a paciência não. decidimos nos virar por aqui mesmo , de qualquer jeito .

É nessa hora que entramos numa vendinha e antes de mais nada perguntamos pro dono do estabelecimento se poderiamos comer lá mesmo. " Já que vocês perguntaram...". Almoço é então pringles em migalhas, polenguinho e suco de laranja nos fundos do supermercado.  Quase uma atividade subersiva. Caiu maravilhosamente bem e nos turbinou o humor.

Já que estamos aqui, vamos fazer o que há pra fazer aqui. Vamos então visitar o que há pra visitar: a Ab'Mukata, o QG da Autoridade Nacional Palestina (ANP), onde viveu e agora está enterrado Yasser Arafat. Não que tenha alguma coisa lá, o local inteiro está em obras. Resta agora um outdoor com a foto do bom velhinho e dois soldados escoltando uma placa memorial no chão. Explica o porta-voz da ANP que ali será construido um memorial, uma mesquita e um museu. O primeiro museu da Palestina. Segundo ele, o outro museu que eles tentaram construir em Gaza, fora de pronto bombardeado por Israel. Engatamos mais conversa com essa figura que só passava por ali. Nos apresentamos , a Lyca fala sobre trabalho voluntário . Ele ouve interessado, pede para marcarmos uma reunião num outro dia e se desculpa pela pressa - culpa do Ramadã.

Da Ab'Mukata vamos para um restaurante de turista, uma das poucas coisas abertas que o nosso motorista nos apresenta. o restaurante, o PRONTO Bar & Cafe, é tocado por uma dessas figuras que já fez de tudo na vida agora resolveu sossegar cuidando do seu boteco e conversando com todos os clientes.

Nem precisa falar que esse café, em pleno Ramadã, virou o point de todo e qualquer estrangeiro. Do pessoal das ONGs ao altos funcionários europeus com seus contratos de milhões de dólares, todos estão lá e naquela tarde todos se sentaram na nossa mesa.

Nosso primeiro convidado, junto com a caneca de cerveja palestina TABYEH, é um ativista do PEACE FIGHTERS. Veio com seu laptop e o ânimo do Coelho da Alice. Dizia o tempo todo "eu não tenho tempo". Pede para marcarmos uma reunião e...

Logo depois vem um senhor de não mais de 60 anos, blazer, camisa de lã linho, calça jeans e um brilhante sapato preto. A verdade é que eu fui pescá-lo na mesa ao lado onde ele elegantemente saboreava um peito de frango e degustava uma taça de vinho. Quase quinze anos de viagens à Palestina fazendo contratos de Saneamento Básico entre a ANP e uma empresa norueguesa. Ele é a grana em meio ao caos, sofisticadíssimo, elegante e gentil. Ele é aquela boa carinha que o hamburger gostaria de ter. Morra de inveja Ronald McDonald!

Depois é a vez de aparecer por lá meu amigo Kevin, que já ligara algumas vezes. Kevin é um rapaz de vinte e oito anos, corpo sarado e cabelo curto que eu conheci quando voltava da Jordânia, na fronteira com Israel. Ele trabalha pro governo americano dando grana pra rádios piratas pararem de ser financiadas pelo Hamas e falarem mal do tio sam. Pra mim ele tem a maior pinta de Agente Secreto. Só que fazendo o que ele faz, onde ele faz, nem precisa ser agente secreto; ele já esta numa "Missão Impossível".

E depois de um monte de conversa e algumas TABYEHS, Kevin nos leva a um bar descoladinho em cima do único cinema da cisjordânia. E esse é o auge do contraste. Um bar com terraço, coqueiros, cadeiras de jardim, luxo! Nem parece Rammalah. Ou talvez pareça, porque Rammalah é puro contraste o tempo todo.

É ali que o Porta-Voz da ANP vai nos encontrar. Ele ligou e disse que nos encontraria nessa mesma noite. Pra quem veio só olhar... Já estávamos às nove e meia da noite num bar esperando um figurão da administração palestina pra um meeting.

Chega mohammed e discretamente sai Kevin. Nós agora já não estavamos cansados, com medo ou frio. O novo, o diferente, o estranho causam uma sensação de histeria. Tudo é inacreditável, surreal, inesperado. Tudo junto em um só dia. E é nesse clima que começa a conversa com essa figura ímpar.

Faço uma breve introdução superficial sobre nossos interesses, nossa "visão" do Oriente Médio e nossa "Consciência Social". As meninas quase aplaudem. Mas esse cara, que lutou com dezesseis anos na guerra do Libano, esteve do lado de Yassera Arafat na líbia de depois pelo mundo todo ("mais de oitenta países" diz ele) até ficarem "reféns" por três anos dentro da Ab'Mukata, cercados por dezenas de tanques israelenses não se emociona. Ódio de guerrilheiro cansaço de homem.

Ele não fala de paz ou de consciência social. Na verdade ele começa uma aula sobre a história do Oriente Médio, do ponto de vista de quem está do outro lado do muro. Começa a aula desenhando o mapa da região e dizendo "esse país aqui sempre foi chamado de Palestina". Daí ele segue a falar sobre o fim da segunda guerra, a resolução do Conselho de Segurança da ONU que dividiu as terras, a fundação da OLP no exílio e outras aventuras dele com Arafat. Testemunho de quem viveu a história lado-a-lado. A conversa se extende e quase às onze da noite eu peço pra irmos embora.

Saimos do bar e ele nos mete num taxi que só nos levaria até o checkpoint. Taxis palestinos não podem cruzar a fronteira. Em termos de experiência de checkpoint, essa deveria ser uma bem light. Onze da noite, checkpoint vazio, nada pra dar errado. A Taty sem passaporte e a Lyca sem visto só atrasariam a viagem em uns cinco minutos. Mas a estrutura era muito curiosa, as grades, as placas insanas. A Lyca decide tirar umas fotos e eu só recomendo que não ligue o flash. Já fora da estrutura militar a Lyca comete o engano e bate uma foto com flash. No mesmo instante sai da sombra uma soldada de não mais que vinte anos. Ela de com uma M16 engatilhada e nós com o cú na mão. Pede pra ver as fotos, sem tirar o dedo do gatilho. A Lyca se desculpa. Pede pra apagar a primeira foto. A Lyca se desculpa denovo. Manda ela apagar todas as fotos do checkpoint. Mais uma vez desculpas. A menina termina o trabalho dela "fotos só pra lá". Se ninguém ver então não aconteceu.

E a essa altura taxis no checkpoint também não há. Venta um frio congelante no meio daquele descampado. E nada de carro, ônibus ou taxi. Já é tarde, e é nessa hora que passa o Civic do Playboy. O nome dele? Maher. Arabe-israelense, a noiva mora em Rammalah. Ele de pronto pede pra ver nossos documentos. Diz que se os nossos papéis não estiverem certos quem se fode é ele. Perde o carro, perde os direitos e corre o risco de ser preso. Começa a contar de uma carona que ele levou uma vez. O cara sobe no carro e nem cinco minutos depois aponta uma arma pra cabeça dele pedindo toda a grana. Ele responde friamente pro rapaz: "vai, atira! Porque eu só tenho 300 shekels (75 dolares) no bolso. Com 200 você enche o tanque de gasolina do carro, com 100 você compra cigarros e cerveja. Foda-se atira logo!" Deve ser alguma coisa cultural ou ideológica, mas o cara não só não atirou como se desculpou. Passamos mais um mini-checkpoint, na verdade um road-block. Um soldado etíope nos trata com arrogância. Maher responde com um sorriso amarelo pra depois fazer um comentário racista sobre o soldado.

Ele nos toma de volta a Jerusalém, direto ao portão de Damasco. Mais uma vez cruzamos a cidade e dessa vez terminamos o roteiro no Kotel. As meninas ficam muito emocionadas. Ainda tenho muita coisa na cabeça. Deve ser o susto mas não consigo chorar. Coisas demais, tempo de menos. Rammalah é estragada, exótica e dificílima de digerir.

Monday, August 20, 2007

A Outra Margem do Rio - Parte 2

Difícil digerir uma viagem tão insana. Porque a pergunta que eu mais ouço quando eu falo que fui pra Jordânia acaba sendo "Mas você foi pra Petra?". Não, eu não fui pra Petra. Sim, eu sei que Petra foi recém eleita uma maravilha do mundo. Mas bom, eu não fui até a Jordânia pra isso. Já decidi que vou com a minha mãe, aliás Petra vai ser um programa maravilhoso pra fazer com a minha mãe, ela ia adorar. Eu fui pra Jordânia pra conhecer Amman, só Amman, e sim tem muita coisa interessante lá pra fazer.
Tá, falar que a sua viagem é interessante é meio bobo, eu sei. Mas num é que eu fui lá fazer balada. E pensei em fazer balada lá sim, mas era mais tosco do que eu imaginava e na última noite acabei trocando a balada recomendada pelo dono do meu hotel por uma sinuca com o meu brother taxista e o barbeiro amigo dele. Roots total! E andar por Amman era a minha grande diversão. Andar pra cima e pra baixo. Sempre de Taxi, que é barato e em Amman quase num tem calçada. É uma cidade de avenidonas largas, que me lembrou nesse sentido Brasília. Mas a semelhança fica por aí. Porque no geral Amman é umas ilha de avenidas bonitas, três ou quatro hotéis seis estrelas lotados de sheiks e outras pessoas humildes do Oriente Médio, rodeado de um favelão no melhor estilo Rocinha Amarelada.
Foi aí que eu entendi o rei quero-ser-galã-de-cinema com bigodinho-de-pagodeiro, o Abdoun Circle com cara de Miami Beach e suas Ferraris, Hummers e BMWs. É desigualde, gente muito rica e gente miserável. Terceiro-mundismo com direito a shopping, fast-food e todo o pacote. Esse povo vive da desigualdade da região. O rei é legal! Todo mundo acha ele legal. Mas Israel é filhodaputa. A mesma porcaria dos dois lados do rio. Um achando que o outro é culpado da desgraça dele. Ninguém muito interessado em olhar pro próprio nariz. Poderia falar que o povo Jordaniano é amigável, mas isso num é assunto.
Eu fiz lá meu amigo taxista, que era meio dono de uma frota de um carro só. Ele emprestava o carro dele pros amigos fazerem uma grana pagando de taxista. Uma figura. No primeiro dia me deu dicas, no segundo me deu café, "não aquelas porcarias feitas no fogão, esse é feito no forno a lenha", no terceiro dia fomos jogar sinuca. Sinuca engraçada, num prédio meio underground, num lugar afastado da cidade. O cara lá contando as histórias do irmão, o outro me falando pra fazer a barba antes de passar a fronteira, senão iam acabar pensando que eu era um terrorista.
E ainda o memorial dos mártires da Jordânia. Onde o Rei conta a história da família e a história do Oriente Médio da perspectiva que eu não conhecia. Burrismos de uma educação sionista enviesada por toda a vida. Contam como eles deram um pau nos Turcos Otomanos, como eles conseguiram botar os Israelenses pra correr umas duas vezes, e como o Pai do Rei Hussein morreu em Jerusalém "que ele lutou pra ser da Jordânia e de todo o povo Árabe"! Divertida lição de história Lado B.
Essa foi a pegada. Diversão em um nível estranho. Assistir uma televisão que só tem em inglês, entre os 500 canais, Al Jazeera International, BBC e Fashion TV Arabia ("Get Exposed!"). Andar nums carros zoados, discutindo preço com os taxistas árabes, que num entendiam porque eu era turista e discutia preço... Ah esse mundo Arabe-Judaico! Muita coisa em comum, pouca conversa...


Friday, August 10, 2007

A Outra Margem do Rio - Parte 1

Eu cruzei o rio! Passei da terrinha pra outra terra. Um trabalho herculeo! Porque se por um lado estar em Israel tem uma forca sobrenatural, parece que essa forca sobrenatural num me deixa sair de la da mesma maneira. Pra chegar ate Amman, a capital da Jordania, eu demorei mais de 4 horas pra percorrer uma distancia de nao mais que 100Km...
E o que em Israel se chama burocracia na Jordania eh a zona generalizada. Em Israel as filas e os soldadinhos de vinte e poucos anos fazendo todo o servico... Na Jordania os tiozinhos de bigodao pra ficar igual ao Rei! Alias esse cara tem a foto dele em todos os lugares. Um superstar na marra! E a aparencia geral da parte nobre de Amman eh a de um shopping center qualquer em fuckin'-nowhere-ville, Alabama. Todas as grandes redes de comida, uma tonelada de carroes, com playboyzinhos de gel, camisa, calca diesel e relogio de ouro! Ferrari, Hummer, BMW, Porsche... E um calor infernal. Diesel, Gucci, Gabbana, Hilfiger misturado com veu e kefia. Pizza Hut, starbucks, McDonald's, KFC e uma mistura de Shawarma (o churrasco grego) com cha persa.
A impressao, por ser o segundo pais Arabe que eu visito, eh de uma sofisticacao emprestada. Um mudeeerrno. Meu amigo robertinho diria "Estamos na Asia", mas eh alem. Amman me faz pensar no que deve ser Dubai. O outro oriente Medio. O anti-Rammalah. Porque aqui esta o desenvolvimento, os petro-dolars, os sheiks...
E estar aqui como brasileiro vindo de Israel torna qquer pergunta comum "de onde vc veio" em uma historia. Eh estranho estar aqui, mas eh ao mesmo tempo revelador. Sentir o Oriente Medio de verdade. Os 500 canais de TV do Egito ao Kwait... Os livros anti-americanos, anti-sionistas e ate Mein Kampf vendendo em tudo quanto eh canto. Eles vivem aparentemente em paz com Israel, mas pelo jeito a populacao num eh muito fan do jeitinho israelense de fazer politica na regiao.
Mas ser turista eh uma desculpa. Voce pode tudo, voce ve tudo, olha tudo como se estivesse ha quilometros de altura. Da vontade de descer, por o nariz no meio da merda, ver o que eh de verdade. Mas na real eu soh tenho 3 dias. A tentativa eh mais importante do que o eventual sucesso!
Depois conto mais. As primeiras fotos ja estao em http://picasaweb.google.com/mauricios/FotosJordania

Friday, August 03, 2007

Amaldiçoado! - Parte 3

Terceira e última verdade sobre mim, mesmo por que eu já num tenho o que contar e eu acabo falando tanto que nem sobra muito segredo pra contar. Eu gosto de pagode. Eu ouço Música sertaneja, eu choro em filme da Disney e adoro o programa do Amaury Jr. e essas outras coisas estúpidas da madrugada. Mas talvez vc saiba de tudo isso por que eu já te contei. Então com certeza você não sabe que eu gosto também de Jazz, Bossa Nova, Lounge. Que eu assisto Two And A Half Men, que eu gosto de CSI e de Kubric e de Tarantino e ainda acho que entendi As Horas mesmo sem ser mulher. Bom a verdade é que eu sou vários, e que talvez coisas que algumas pessoas não sabem sobre mim sejam muito óbvias pra outras pessoas. Não é que eu tenha muitos segredos, e na verdade os grandes segredos num vou sair publicando em blog, por que de escândalo vocês já estão cheios no jornal. Mas é que talvez esse negócio de revelar um lado pra uma pessoa que não conheça pode parecer mesmo interessante.
Chega! Se o coelhinho quiser vir que venha. Faz um tempo q eu perdi medo de coelhinho! Não muito tempo, mas...

Thursday, July 26, 2007

Amaldiçoado - Parte 2

Vamos passar logo essa fase maldita. Ou bendita, porque me fez voltar a escrever...
Segunda coisa que ninguém sabe sobre mim. Eu agora quando voto, voto sem falar pra ninguém o que eu tô fazendo. Tem um monte de gente que ficava me pressionando pra votar em alguma coisa, mas eu decidi parar de aceitar a pressão. Então por isso muita gente num sabe que eu votei no Lula de novo, ou mesmo que eu votei no Fórum da Esquerda, ou que eu votei no Sim no referendo do desarmamento... É, eu sou meio louco!

Wednesday, July 25, 2007

Amaldiçoado! - Parte 1

Algum fofo entre os meus leitores me deixou esse presente:
"A Maldição do Coelhinho
Deve postar no blog uma lista de 6 coisas que as pessoas não sabem sobre você ou suportar um ataque de um coelho gigante com um tiro na cara, igual ao Donnie Darko, quando você estiver lavando os cabelos de olhos fechados. Depois, tem que repassar a praga para 6 blogueiros"
Deve ser pq eu ando muito relaxado com o meu blog, então aí vai, novo tema pros meus posts...

1 - Eu cantei num programa de televisão quando eu tinha 7 anos de idades. - Talvez seja patético, mas eu cantei uma música do Engenheiros do Havaí, "Era Um Garoto Que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones". E eu nem sabiam quem eram os Beatles ou os Rolling Stones. Eu estava na Hebraica, era um programa da Gazeta, que eu nem lembro o nome. Mas eles gravaram e eu fiz uma performance totalmente Rock n'Roll, sem saber o que era Rock n'Roll, é claro!
Só a mamãe lembra, mas foi engraçado... e prova que a entrevista do Pindura na Daslu não foi minha estréia televisiva!


Thursday, July 19, 2007

Num falei...

Odeio esse clima de "num falei". Mas a minha impressao sobre Israel ta ai comprovada por algum estudo, ou dado, ou sei la o que seja, que saiu publicado no Jewlicious que por sua vez roubou de uma tal de Globes:
"19 Familia controlam 34% da renda de Israel"
Abaixo vai a historia pra quem tem preguica de abrir link:

BDI: 19 families control NIS 248b in revenue
The aggregate income of the 19 families equaled 88% of the government budget of NIS 283 billion in 2006.
Roy Goldenberg 19 Jul 07   19:02
Business Data Israel (BDI) reports that Israel's 19 wealthiest families controlled an aggregate NIS 248 billion in revenue in 2006, 34% of the NIS 722 billion earned by the country's 500 largest companies altogether. This is BDI's third annual concentration index on concentration in the Israeli economy.

BDI adds that the aggregate income controlled by the 19 families equaled 88% of the government budget of NIS 283 billion, and over half of the business product of NIS 457 billion.

The 19 families include the Dankner, Ofer, Tshuva, Weissman, Saban, Arison, Bino, Federmann, Borovich, Leviev, Hamburger, Azrieli, Fishman, Strauss, Wertheim, Alovich, Zisapel, Shahar, Kass, and Schmelzer families.

Three changes appear in the 2006 list, compared with 2005: Steff and Eitan Wertheimer were taken off the list following the sale of 80% of Iscar Ltd. to Warren Buffett's Berkshire Hathaway Inc. (NYSE:BRK-A); and the Alovich and Azrieli families were added.

Nochi Dankner, the chairman and CEO of IDB Holding Corp. Ltd. (TASE:IDBH), headed the 2006 list, and his share of the 19 families' aggregate income rose to 18.7% from 16.3% in 2005. His income rose by 15% thanks to acquisition of 31% of Koor Industries Ltd. (TASE:KOR) in 2006 for $394 million.

Yitzhak Tshuva, the controlling shareholder in Delek Group Ltd. (TASE: DLEKG), made the biggest climb in the list, compared with 2005, after acquiring Israel Phoenix Assurance Ltd. (TASE: PHOE1; PHOE5) from Shahar and Kass at a company value of $670 million. His share of the 19 families' aggregate income rose from 5.9% to 10.9%, an increase of 84%.

The BDI concentration index examines the controlling shareholders in influential Israeli companies, effectively running them. The index does not examine the families' wealth; therefore, families with similar wealth, but with little economic influence and/or whose wealth is derived from business overseas, are not included.

Published by Globes [online], Israel business news - www.globes.co.il - on July 19, 2007


Nao meus queridos, nao eh minha sindrome de brasilianismo, Israel eh sim um pais desigual.


Sunday, June 24, 2007

Pra que falar de política?

Israel é um país em guerra. Israel contra o povo Palestino. Israel é bombardeado diariamente. Malditos Árabes!
Esse mantra é simplesmente a manchete de 90% dos jornais israelenses desde que eu cheguei aqui. Israel tem problemas com os seus vizinhos. Todo mundo sabe. À rigor não há solução a curto prazo, a não ser mais um muro. Se bem que na minha última viagem a Ramallah eu vi com esses meus bons olhinhos um par de moleques passando pelo meio de um buraco no tal do muro. E se o muro é furado o muro não serve pra nada. Mas tem gente que ainda acha que o muro é a solução maravilhosa de todos os problemas do mundo!
Sim, aqui só se fala em guerra. Goste, não goste, aprove ou desaprove. Esse é o assunto do país. Mas isso não é o problema do país, é só o único assunto. Porque quando se fala em guerra todos os outros assuntos somem. A educação em Israel está sucateada? E daí, nós estamos em guerra! Mas os direitos trabalhistas em Israel são quase indecentes! A culpa deve ser dos Árabes. Mas agora querem privatizar todo o país! Desde que não tenham Árabes se explodindo na minha calçada...
A alternância de poder binária israelesne dos últimos 50 e tantos anos do estado virou vício. Não há nada de muito novo desde que os religiosos resolveram enfiar o nariz na política e virar o fiel da balança. Mas o Presidente Shimon Perez num era trabalhista? E virou governo no Kadima (que em hebraico quer dizer "pra frente") que é o saco de gato da política, tiro de misericórdia do velho lobo Sharon. E se o governo é de esquerda fala que vai devolver e não devolve nada. E se é de direita ameaça tomar tudo de volta e acaba devolvendo Gushkatif, que era o marco da resistência dos colonos no meio de Gaza.
Não tem diferença nenhuma entre o governo de Esquerda e o de Direita. São todos a mesma elite que há anos se locupletam no poder, na dança das cadeiras do Knesset. E o país fica aí com essa cara de atravessado. Uma modernização tosca, feita às pressas e na base de uma dependência doentia dos EUA. Importante mesmo é proibir parada Gay em Jerusalém. Pra isso tem protesto na rua, religiosos queimando lixo, briga em todos os fóruns de discussão possível. Mas a universidade passou mais de 40 dias em greve e nada mudou.
Deve ser alguma coisa relacionada ao tal do Fog of War. E eu nem sei direito como, mas deve ser isso que toma conta da politicagem estúpida guerrista israelense. O povo vive em guerra, mas não tem a mínima idéia de contra quem.

Thursday, June 21, 2007

Mais uma vez Ramallah

Dessa vez foi com um propósito preciso. Estava decidido a pegar o visto pra Jordânia lá. Sim, eu poderia ter ido pegar esse visto na embaixada em Tel Aviv, mas seria bem menos divertido e sui generis. Além do mais uma viagem a Ramallah custa só em transporte 1/4 do que custa uma viagem a Tel Aviv.
Não pensei muito, coloquei mochila nas costas, tirei a kipá e fui me pra Jerusalém Oriental pegar o ônibus que eu já conhecia. Fui sozinho, e por via das dúvidas, deixei duas pessoas à par da investida, afinal se algo desse errado era bom saberem que eu não estava no centrinho tomando café.
O ônibus lotado e dessa vez não tinham turistas como da outra vez. Sem problemas, sentei e imaginei que ia chegar no centro de Ramallah e procurar a embaixada, que dizia o site do governo Jordaniano, fica perto de um hotel. Mas essa não era a minha sorte.
De bobo resolvo virar pro lado e perguntar num inglês demasiadamente abrasileirado pro velhinho do meu lado se ele sabia onde era a embaixada. Ele fala que nem tinha como não saber, fica na frente da casa dele. Bom desse ponto até descobrir que o cara é um cirugião plástico que foi estag. do Ivo Pitanguy foi um pulo. Ele falava português e adorava o Brasil no esquema Samba, Caipirinha e Bunda. Na passagem de entrada do checkpoint, quando não há nenhuma verificação, ele me fala pra descer com ele. O carro dele fica estacionado todos os dias no checkpoint. Ele não pode entrar em Israel de carro, apesar de entrar em Israel diariamente. Uma hora pra fazer um percurso que na real não deveria demorar 10 minutos. São Paulo tem trânsito, Ramallah tem checkpoint. Ele me leva de carro até a embaixada da Jordânia, que é uma casa engraçadíssima.
No andar de cima da casa, uma sala com alguns caras jogando gamão e tomando café. Uma cena típica do oriente. O visto deveria ser tirado na garagem. Uma garagem com um balcão no meio, uma mesa num canto e uma prateleira com folhetos magníficos sobre a Jordânia no outro canto. Burocracia básica e na parede duas fotos do Rei, uma fazendo pose de macho e outra com a camisa da seleção da Jordânia. Hilário e quase triste.
De resto uma passada rápida pelo centro, algumas porcarias adquiridas e uma Câmera Zenith-E por 25 contos, coisas da rua em Ramallah. Na volta me avisam que eu, como turista, posso skip o checkpoint. Deu vergonha, mas eu não fui pro checkpoint, passei junto com os velhinhos do ônibus.
E voltar de Ramallah é sempre mais divertido. Na IDT eu também virei assunto. Minha amiguinha uruguaia, a Nadia, achou muito divertida minha história e resolveu contar pra todo mundo. Depois dos downsizings todos, todo mundo são só umas dez pessoas. Mas eu tive que ouvir do americano mané que eu era exatamente o tipo de cara que ele ouve falar no noticiário no EUA. "Jovem sulamericano desaparece em Ramallah". Mentira, eu sou o que ele não ouve falar. Porque tem gente indo e voltando pra Ramallah todo dia e o mané americano ouve uma vez uma história e acha que tem tiroteio no meio da rua em Ramallah. Mas num tem gente se explodindo todo dia em Israel? Estranho que ele só ouça a primeira parte da notícia.
Mas é da Nadia mesmo a pérola pós-Ramallah da vez. Porque um outro israelense resolveu me explicar como era perigoso estar em Ramallah e como você nunca pode confiar nos Árabes. Dizia ele que quando ele era pequenininho na casa com jardim dele no meio de um assentamento na Cisjordânia, os árabes eram amigos dele. De um dia pro outro tinha arame-farpado no quintal dele e os árabes, dizendo que aquilo era deles, começaram a jogar pedras e ameaçar a família dele. Nisso a Nadia replica sem nem pensar "Mas você não deveria estar lá!". Começo a rir. Ela tá certa. O cara tá tentando explicar caráter por uma disputa política manjada. Falar de política em Israel começa sempre assim! As afirmações são sempre categóricas e contundentes. Quiseram trazer a conversa de novo pra área "lições de moral pra um brasileiro tonto", mas aí o jantar acabou, o intervalo acabou e todo mundo voltou pro trabalho.

Monday, June 11, 2007

Meu Mapa de Jerusalem

Sim, eh essencialmente inutil. E eh so mais uma das mil aplicacoes milgarentas do Google Maps. Mas eh divertido e eu resolvi meter a mao e fazer direitinho.
Ta ai, o mapa completo, com fotos de cada um dos lugares que eu ja encontrei em Jerusalem.
Soh fica meio chato pq o mapa mesmo de Jerusalem ainda num ta completo no Google. Mas a foto de satelite ta la!
Parece divertido.
My Jerusalem

Sunday, June 10, 2007

Salvando a sua pele

Esse fulano não me desce. Pesado! como diria a minha amiga uruguaia. Ele me acompanhou desde o meu começo dentre da famigerada corporação multinacional. No seminário de vendas eu o ofusquei e era claro entre eu me minha amiga Nechama que ele era um mala. Fui contratado pro projeto em que hoje trabalho. No meu treinamento ele também estava lá. E é dos poucos que entrou comigo que sobreviveu à selva do call center. Porque no final o meu trabalho lembra um Survivor. Cada dia some um. Não é Survivor, é filme de terror.
E a figura incomodava. No começo do emprego ele desafiou todos os limites. Reclamou dos feriados que eles não davam, criticou os que ele queria (podia) trabalhar. Anadava pra cima e pra baixo com uma calça caída no meio da bunda, sendo que a empresa mantém um tom religioso. E se falaram que não podia trabalhar de bermuda ou regata, ele tentou os dois. Reclamou de tudo que podia reclamar, e mesmo quando o assunto não incomodava ninguém. e uma vez no ônibus eu tentei falar com o figura. Só reclamou, falou que o que eu escutava não era música, e ainda falou que era Emo! Desisti de tentar a postura amigável e toquei-lhe o famoso F...!
Mas o mala continuava. E há algumas semanas, quando eu mal e mal sobrevivia na equipe ele estava no seu auge. Me fazia apostas, me colocava desafios, competia sózinho pra encostar no meu desempenho pífio nos telefones. Mas a maré mudou. Nas últimas duas semanas eu deslanchei, fechei o mês entre os melhores da equipe e ganhei o bônus da semana na terça-feira passada. Ele estancou. Já não vendia nada. E até a inveja da figura já não me chegava. Num me preocupava mais nem ele nem qualquer outro mané. Eu e minhas escudeiras estávamos fortalecidos. Um ajudava o outro. Ele estava fora!
Mas na quarta-feira o cliente do Canadhá, que vinha oferecendo mundos e fundos e elogiando o super desempenho da equipe, urubuzava pelo call center. E ele foi pego. Foi pego fazendo o que todo mundo fazia. O que mandaram todo mundo fazer. Ele estava salvando na sua conta pessoal de email os dados dos clientes, como tinham mandado a gente fazer. O playboyzinho de relógio de ouro, iPod e Blackberry soltou os cachorros no rapaz. Chamou de bandido, almadiçoou as gerações, quase jurou de morte. Morte corporativa. Termination (a boa e velha "justa-causa")! Congelou o moleque e providenciou a remoção imediata dele da equipe. Enquanto isso minha amiguinha uruguaia gritava "boludo borre todo que tienes en tu email". Era uma cena de máfia, daquelas que se abre a porta e vê um monte de gente literalmente queimando os arquivos. O burburinho aumentou, o mal estar estava instalado. O grupo repentinamente parou. Minhas escudeiras se reuniram ao meu redor e arbitramos em consenso que deveríamos fazer alguma coisa. A essa altura o supervisor já tinha levado o meliante pra uma salinha e providenciado seu desligamento, à vontade do sinhô. Saímos e avisamos o playboy que não só ele tinha feito isso, como toda a equipe fazia isso rotineiramente. A expressão dele foi no mínimo cômica. A mão na cabeça, a cara de cú e um "Oh Shit!" mais sincero impossível.
A equipe se reuniu, o playboy concede uma segunda, trouxe de volta o "pesado" e quebrou o sigilo do email de todo mundo pra apagar pessoalmente o que tinha que ser apagado. Escapei e ajudei a salvar o figura. Que ele nunca venha me agradecer!

Friday, June 01, 2007

Gabi,

E acontece agora toda vez que eu ouço MPB. Ou quando alguém me fala de Lindoya. Ou mesmo quando alguém me colocou pra ouvir "The Summer is Magic". Me doi o peito, da vontade de chorar, de falar que isso me lembra você, de falar que você gostava tanto. Porque você sempre foi a irmã que eu não tive. E os seus quinze anos foram o meu bar-mitzvá. E a sua formatura da faculdade foi junto com a minha do colégio. E a gente passou tantas férias juntos, e depois a gente riu junto, jantou junto, saiu junto, com ou sem os respectivos namorados.
E era ótimo saber que você tava lá. Às vezes super ocupada no trabalho, às vezes só me chamando de madrugada pra comer batata no fifties. E o chopp da Lanchonete da Cidade? 
A gente dividiu e multiplicou muita coisa. E eu sai de campo antes do final do jogo. Você teria apoiado. Aliás eu tenho certeza de que você, onde quer que você esteja, está muito orgulhosa de mim.
Mas eu morro de medo de voltar pra sua casa e não te ver lá. De ver os teus CDs, de ver as suas pequenas coisinhas todas ali no seu quarto, de sentar no chão do seu quarto e não ter mais você lá. De não te contar isso tudo que me está acontecendo, de não rir com você de não te consolar.
Porque esse show que você pôs no mundo foi bonito e breve demais. E o seu brilho foi de estrela cadente. Brilhou e passou. E ficou dentro de cada um que viveu com você uma saudade. Saudade bonita. Saudade de quem lembra da pessoa incrível que você foi. E como você adorava os teus amigos, e como você não tinha medo de dividir e multiplicar os seus amigos e os chopps do Pirajá.
Gabi, eu não fiquei com você até o último minuto. É por que eu to com você pra vida inteira. Pra sempre. Nesse e nos outros mundos. E eu sinto saudade. E eu sempre vou sentir saudade de você. E eu sinto falta de ter te dado mais um abraço, de ter te contado mais uma piada, de estar do teu lado mais uma vez.
Agora você entrou nessa canoa, naquela terceira margem que a gente não vê. Que a sua canoa venha me buscar quando for a minha hora, porque ninguém melhor do que você pra remar junto.
 
Um beijo grande,
 
Mau

Tuesday, May 29, 2007

Taynadas!

Essa figura resolveu brincar com uma das minhas fotinhos. E eu nem sei por onde anda a mocinha da foto. Taynan eh uma figura. Quem conheceu num esquece!

Tuesday, May 22, 2007

Mais uma vez Tel Aviv

Segunda-feira. Victoria's day, aniversário da rainha da Inglaterra. E o Canadá, pra mostrar que não é colônia dos EUA comemora o aniversário da rainha. E eu, que sou brasileiro e trabalho pra uma companhia americana em israel prestando serviço pra uma empresa canadense não trabalho! Ótimo, vou pra praia. Aliás nada é mais sui generis que praia na segunda-feira. Não em Tel-Aviv.
Não acordei cedo, assisti um pouco de aulas pela manhã e fui-me de mochila nas costas pra outro mundo. É incrível que Tel Aviv e Jerusalém fiquem a apenas uma hora de ônibus. Porque de verdade é outro mundo. São toneladas de cafés cool um do lado do outro. Pouquíssima coisa Kosher, e uma galera globalizadinha em tribos diversas. Aproveitei pra almoçar com um amigo no Dizengoff Center, um shopping que deve ser no mínimo da década de 80, que essencialmente é estranho e cafona. Um falafel, um passeio rápido pelas lojas e me mando pra praia.
Fico deitado olhando as velas de windsurf voando pelo mar. E longe, mais pro sul, um mar de velas de Kite Surf. A praia cheia. Nem parece segunda-feira.
Aproveito o fim-de-tarde pra ir até Iafo. Tinha visto numa loja na parte antiga de Iafo a uns quatro meses uma Kipá que eu adorei mas num tinha fundos pra fazer o investimento. Voltei lá e comprei. E ainda saí amigo da tia Hebe, uma velhinha uruguaia que já está há mais de cinquenta anos em Israel. Uns doces no tradicional Aboulafia & Sons e começo o caminho de volta. Paro num lugar chamado Honey Beach Club. Na verdade é só um quintal de frente pro mar. Mas eles colocaram um monte de poltronas, sofás, almofadas e até rede, tudo pra você ficar olhando o mar e no fim-de-tarde assistir o pôr-do-sol incrível de Tel Aviv. E quando começou uma ventania passa uma mocinha distribuindo mantinhas pra todo mundo.
Caminho pela cidade até voltar a Nachlat Biniamin, uma rua paralela à Alenby, cheia de restaurantes e botequinhos. E era o festival da rua. Todos os restaurantes estavam com um Stand na calçada. Cerveja e Vinho baratos e você ainda levava o copo de presente. Petiscos interessantes.
Finalizo com dois temakis num kiosque de japonês na Rotschild com a Alenby. Comida japonesa aqui é moda, mas ainda falta muito arroz e alga pra os caras terem alguma qualidade. Matou a vontade, mas não a saudade.
Parece que eu estava com algum medo de Tel Aviv nos últimos tempos. Perdi.  

Saturday, May 19, 2007

Nachlaot

Nch-la-quê? Nachlaot, o bairro mais cool de Jerusalém. E depois do meu último post eu voltei pra yeshivá e só falava de Nachlaot. E falava empolgado, era como se no começo da década de 90 alguém te convidasse pra passar um fim-de-semana no SoHo ou na Vila Madalena. O lugar é tudo de cool que Jerusalém consegue ser. É metro quadrado mais caro entre os lugares descolados.
Me peguei pensando o que é que hoje em São Paulo (na verdade ontem, ou seja, quando eu saí de São Paulo há quase cinco meses) equivale ao status de morar em Nachlaot. De alguma maneira me lembrou o Copan. É que Nachalot está bem atrás do Shouk Machané Yehuda, o mercado judaico central da cidade. E é quase insalúbre esse mercado. Muita gente, restos de comida, cheiros interessantes e às vezes muito fortes. E está também há apenas uns cinco minutos à pé do centro da cidade. E tem de tudo. Lá moram grande parte dos Carlebachs, alguns Ortodoxos, muitos Não-religiosos ou mizrahim, alguns imigrantes filipinos (a versão asiática do nordestino), traficantes, americanos e outros tipos engraçados.
E sexta-feira à noite todos estão na rua. Aliás estão na rua desde sexta-feira à tarde. Os religiosos de todos os tons com suas compras e preparativos pra Shabat, a molecada na rua jogando bola, músicas várias estourando pelos cantos. Uma floresta de gente. E à noite todo mundo caminha. E todo mundo se tromba pelas ruas do bairro. Lembra uma vila. Todo mundo se conhece, todo mundo te dá Shabat Shalom.
E meu Shabat lá foi quase que uma gigante refeição. Comi à noite, comi da hora que eu acordei até a hora de ir embora. E um monte de gente apareceu na casa. Hippies de todos os tipos. Descalços, de batas, de barbas, vestidos neo-hippies caros. Alguns falavam de acampar, outros falavam de Whiskie Single Malt. Startrek, South Park e a dose essencial de cultura pop que identifica qualquer Twentysomething hoje. Não faz tanta diferença se são newyorkers, canadenses, sul-africanos ou brasileiros. De novo fiquei equalizado pela cretinice enlatada que eu consumi durante toda a minha vida. E as vezes agradeço.
Nachlaot é super cool, estranha, convidativa e aconchegante. Porque no final das contas os vizinhos se ajudam, um te dá arroz, outro te empresta a panela. E americanos em massa brincam de casinha. Se eu morasse aqui moraria em Nachlaot.

Friday, May 11, 2007

Adotado pro Shabat

Isso eh completamente insano. Eu estou nesse momento escrevendo no iBook do Yossi, marido da Yael, que eh amiga da Hanna e da Shira, que eu encontrei no Beitze Ein quando eu tomava o meu brunch de sexta-feira pre-Shabat. E eh um apartamento bacanissima o que eles moram, aqui em Nachlaot, a Vila Madalena (ou o soho, ja que a Yael eh newyorker).
Eh que todos os meus planos pro meu primeiro Shabat depois de receber o meu modesto soldo da IDT tinham ja ido por agua abaixo. E mais os meus segundos planos tambem foram arruinados. Primeiro eu pensava em ir pra praia. Mas ai deu de quebrar a massa de ar quente e resolver chover em Israel em Maio, o que segundo a rapaziada aqui eh milagre. Pra mim eh desastre. Depois resolvo ligar pros meus contatos Judaismo, Paz e Amor pra ver o que vem. Casa da Tia Emuna com doze mulheres! Ja tinha ate comparsas envolvidos na jogada. Mas nao durou muito. Recebo uma mensagem dizendo que eu tinha sido convidado pra casa do Rosh Yeshiva (o diretos da yeshiva), e era muito desprespeito nao aceitar o convite. Desmarco com a Emuna (ai q dor...) e me conformo em ter que andar uns quatro quilometros durante a noite de Shabat.
Mas a festa ainda nao tinha acabado. Acordo hoje e descubro que o jantar na casa do Rosh Yeshiva tinha sido desmarcado. Me colocariam em algum lugar. Ja desolee saio pra pelo menos tomar meu cafe-da-manha divertido e cool, sozinho mesmo, e depois ir procurar coisas divertidas no Shouk Machane Yehuda (a grande feira-livre de jerusalem).
Chego no Beitze Ein e sento sozinho numa mesa na calcada. Mesa pra quatro, somzinho no ouvido (um mp3 emprestado), olhando o movimento da King George. Eis que uma mocinha, que estava com mais dois amigos. Me pede pra sentar dentro, numa mesa pra dois recem desocupada. Soh que atras da tal mesa estava um cara que eu conheco mais ou menos e que ja me cumprimentara formamente. E voce nao quer ficar sentado sozinho na mesa do lado de alguem que voce mais ou menos conhece e que nao foi la muito amigavel com voce. Acabo convidando a tal mocinha e o casal de amigos dela pra sentar na mesa comigo. Uma amiga ainda chegaria. O cara me reconhece do onibus. Ele havia me parado na rua, perto da IDT, pra me pedir informacao. Ele percebeu que eu so poderia trabalhar na IDT, afinal, segundo ele, eu era o cara mais bem vestido do onibus (um calor insano e eu estava de calca, talvez fosse isso...), falava portugues e nao era ortodoxo.
A conversa rola solta. As meninas falam da balada de ontem. Todo mundo de ressaca! Uma acordou pelada na cama... vai saber! Me divirto com o nonsense. Resolvo ir pro Shouk com eles. Acabam me convidando pra Shabat com eles. Nao resisto aceito o convite e vou pro shouk me divertir um monte comprando ovo, vinho, pimentao, frango. O Shouk movimentadissimo num tem comparacao com nada que eu ja tenha visto. E eh so uma sexta-feira normal antes de Shabat. Mas a verdade eh que Shabat nao eh uma coisa normal. As pessoas realmente se preparam pra Shabat. Rola uma ansiedade grande, todo mundo tem que comprar tudo que precisa, arrumar a casa, cozinhar. Uma vez me disseram que Shabat eh como Natal toda semana. Toda a familia reunida, comendo um monte, em volta da mesa. Entao imagina que eu estou passando Natal na casa de alguem que eu conheci a tres horas atras. Insano e fantastico!
Diz a Yael que me adotou. E homeless do jeito que eu tava, devia parecer mais um cachorro vira-lata no meio da rua vagbundamente abanando o rabo. Ca estou, prestes a passar Shabat com os meus amigos da rua, ouvindo jazz e postando.
Shabat Shalom!

Thursday, May 10, 2007

Lag ba Omer on the Woods

Era Lag baOmer, a festa das fogueiras, aqui em Jerusalém. Há mais de uma semana todas as crianças já juntavam toneladas de lixo pra fazer uma fogueirinha nas várias ruas aqui de Har Nof, bairro onde eu moro. E na minha caminhada durante o Shabat eu já via o que estava por vir. Fogueiras de lixo em geral de proporções incendiárias. Não parecia uma boa idéia.
Mas eu já tinha, desde a semana passada, combinado de passar Lag baOmer com o meu amigo Itzhak Athias. Ele é um músico de quarenta e vários, casado com uma americana, pai de seis filhos e avô de dois netos já! Detalhe, o filho mais novo dele deve ter quase a idade do neto mais velho, uns três anos. Aqui se começa cedo e não se pára tão cedo.
O Itzhak é parte do networking que o movimento Judaísmo, Paz e Amor me gerou. Ele é amigo da Tia Emuna e do Tio Reuven. O Shabat na casa dele, onde eu já fui duas vezes com o meu amigo Daniel Gerab, é simplesmente maravilhoso. Porque toda a família dele é muito musical. E ele tem rítmos incríveis para cada uma das músicas que se canta durante o Shabat. E as histórias dele são todas do ritmo do meu amigo Carlebach. Não parecia nem um pouco uma má idéia passar Lag baOmer com a família Athias. O Daniel estava empolgado na ideia e não me deixou desanimar.
E ontem, quando terminou Shabat, começou a queimada. Várias fogueiras em todas as ruas do bairro. Fogueiras insanas de mais de dez metros de altura. Fuligem pra todo canto e eu de camisa branca. Meu bairro é bem perto da floresta de Jerusalém, e a festa da família Athias era na floresta. Eu só não sabia o quanto dentro da floresta. Uns três quilometros longe do que se pode chamar de civilizacao.
E mais uns duzentos metros de caminhada acima da montanha e dentro da floresta.
La Itzhak e mais algumas outras familias arrumavam tudo ao redor da fogueira. Cadeiras de praia, tapetes, churrasqueira. E o que eu pensava que era só uma festinha era na verdade um acampamento. Com direito a hot dog, marshmallows e muito vinho! E a familia Athias  toda é muito musical. Papai Athias toca percussão, Mamae Athias toca flauta transversal, o Menino Athias Grande toca violão, e o Menino Athias Pequeno toca percussão como o Papai. E ver todo mundo tocando, em volta da fogueira foi no mínimo tocante. E Papai Athias ainda tocou um sambinha...
Acontece que ir embora era um trabalho gigante e acabaram nos convidando pra passar a noite. Eu, que nunca havia dormido numa barraca na vida, e com vinte e quatro anos achava que não ia mais dormir, acabei ali, no meio dos mosquitos, de pé sujo e defumado. Claro que depois de quase duas garrafas de vinho não foi muito dificil dormir. O problema é acordar no meio do mato... Ressaca é pouco!

Tuesday, May 01, 2007

Farinha de Matzá

Eh porque um blog eh pouco. E tinha um monte de coisas que eu queria falar sobre judaísmo, mas que talvez num fosse a cara desse blog. Mas também era porque eu tenho uma inveja gigante dos caras do Jewlicious, que tem uma linha moderninha, e tem liberdade de comentar qualquer assunto, relevante ou nao da vida judaica no circuito Los Angeles - Jerusalém. Mas o meu circuito num eh esse, e na maior parte das vezes as piadas do Jewlicious num são tão engraçadas assim pra quem num mora em Los Angeles.
Ai a vontade de escrever juntou com o vácuo de humor judaico nao-circense. E eu, Srta. Jackie e Srta. Stephanie resolvemos começar um blog só pra enfarinhar o ser judeu em SP. Nosso texto de abertura, feito a seis mãos entre Jerusalém e São Paulo já ta no ar.
O texto ta la no site http://farinhadematza.blogspot.com/. Acompanhem nos próximos dias os primeiros posts!

 -------------------------------------------------------------------

I can't Belive it's Farinha!


Mas é! Todo mundo diz que é. Meu rabino diz que é. Tá lá escrito na embalagem: Farinha de Matzá. Então quer dizer que há no mundo uma farinha que não é farinha? E isso só porque durante uma mísera semana no ano o povo Judeu não deve comer coisas fermentadas e as farinhas normais (trigo, milho, rosca...). Aí eles vão e inventam uma pseudo-farinha, só pra bubbale poder fazer bolos durante Pessach.

E é nesse ambiente enfarinhado, pero kosher le Pessach, que vemos alguns paradoxos no judaísmo (ou seria em sua prática?). Eles merecem olhares mais críticos, só pela farofada. Por isso é que vale a pena colocar o Farinha de Matzá no ar.

É que o Jewlicious é muito legal, o Jewcy é super cool e o Jewschool super completo, mas nenhum deles jamais ouviu falar de Projeto Kiruv, Higienópolis e suas 1001 sinagogas, a zilana e outras peculiaridades da vida judaica paulistana. E ser judeu brasileiro pode ser bem chato. Porque em Terra Brasilis o judaísmo se reduz a religião ou bairrismo. Até pode acontecer de as duas coisas fermentarem e aí... eis que surge uma combinação explosiva das duas coisas. Me abstenho de comentar, mas não resisto ao trocadilho: "não existe lashon hará abaixo do equador".

Aqui a coisa rola assim: por um lado, os rabinos tentam explicar Torá for Dummies, que por sua vez estão mais interessados na graninha que vão descolar por freqüentar as aulinhas. No decorrer do ano a coisa pega: sinagogas viram ponto de encontro pra galera marcar baladas. A mais top delas é a balada pós-Yom Kippur, qundo depois de jejuar (para ficar mais elevado espiritualmente, CLARO), a galera vai encher a cara e fazer besteira na festa mais badalada da comuna. E o senso de humor? Bom... quem quiser humor judaico, que escute as piadas do tio ou providencie um box com todas as temporadas do Seinfeld.

Bom, garotinhos e garotinhas, acontece que nós aqui temos nossa visão particular de chessed. E para exercer toda essa bondade latente em nossas neshamot, achamos por bem enfarinhar o ser judeu e brasileiro. E pra rir das milanesas, farofadas, pirões e outras massas em geral. Tudo de uma forma mais kosher le pessach, claro.

Até agora temos três tsadikim na empreitada de um blog-cool-jew-tupiniquim. Um deles está peregrinando pela Terra Santa com o intuito de tornar-se um tsadik e assim é, por excelência, nosso correspondente internacional. A outra esconde o caráter bicho-do-mato atrás de humildade (pra parecer mais kosher). E há ainda uma terceira mentora do projeto. Trust me: ela é mais kosher que você (oê, oê, oê).

Ah sim... estamos recrutando. Inscreva-se no processo seletivo que nós ainda criaremos.

Bueno... pienso que es esto. Bienvenidos a la farinhada!
 -------------------------------------------------------------------

Friday, April 27, 2007

Sobre Telefones e Hamburgers

Me diz que você nunca recebeu uma ligação indesejada de um operador de telemarketing? Pois é, esse operador sou eu! E eu ligo pra você e pra todos os seus amiguinhos, tudo em um dia só. Porque eu posso fazer centenas de ligações telefônicas por dia, e te alugar por horas te falando algo que você não quer ouvir, te oferecendo um produto que você não precisa, só porque paga o meu aluguel.
Há algum tempo li em algum site de notícias uma matéria que chamava "It's the hamburgers you fool". Falava sobre a onda saudável do McDonald's, com saladas, franguinho grelhado e frutas. Mas a realidade é que o grande lucro do McDonald's vem mesmo dos malditos, gordurentos e super-saudáveis hamburguers. A salada é então uma ação de marketing, assim a responsabilidade social ou ambiental!
E ética em telemarketing é como tabela de preço na zona. Cada um faz o que quer e tenta justificar falando que há decência nesse serviço. Nada é pessoal, são apenas negócios. E esse negócio deve valer uma bela grana. Porque é lógico que apesar de eu pensar que ganho bem, eu sou tão mal pago quanto eu posso ser. É outsourcing, e só vale a pena pro cara da empresa porque paga pouco. Então, vamos fazer uma central de telemarketing em Israel, pra ajudar os Olim Hadashim (imigrantes novos), mantendo valores judaicos, com academia de ginástica, aulas de hebraico e até sinagoga. It's the haburgers you fool!
Por que outro motivo senão pela força da grana? Caí no sub-mundo de The Corporation, com direito a baia, metas de vendas, discurso motivacional e bônus para os vencedores no final do dia. Tem americanos competitivos, script plastico ensaiado e qualquer tipo de café na máquina a dez agorot (dez centavos de shekel, equivalente a cinco centavos de real). Grandes empresas são movidas a café. Fico imaginando um mundo paralelo, onde as drogas seriam legalizadas e essa máquina, pelos mesmos dez agorot, cuspisse cocaína, ecstasy, anfetamina e etc. It's the haburgers you fool!
Sim, no pacote ganhei ligações de graça pro mundo inteiro, só porque não faz a menor diferença para a companhia. E isso era uma ideia antiga que eu tinha. Que custo tem uma operadora telefônica? Ela faz a rede, instala as linhas, da suporte pros caras, conserta, desconserta. Mas qual é a diferença se depois de instalado o sistema o cara usa um minuto ou um milhão de minutos? Não acabam os minutos, como se pode dizer que acaba a água ou a energia. Talvez seja porque o sistema é sub-dimensionado (tente fazer uma ligação na noite de reveillon), e se todo mundo resolver usar ao mesmo tempo a coisa num vai funcionar mesmo. A minha companhia tem as suas próprias linhas e num tá nem um pouco preocupada se eu ligo pra Israel, Los Angeles, São Paulo ou Tókio. It's the haburgers you fool!
Então eu trabalho pro Ronald Mcdonald! Quem é o palhaço?

Sunday, April 22, 2007

Stoners Town

É porque ser judeu mesmo é ter alguma família em Israel. Metade da minha "família" israelense está lá em Arad, respirando um dos ares mais puros e chatos do mundo. A outra está numa cidade diferente, o pólo do desenvolvimento do Negev - Beer Sheva. É uma cidade bíblica, mas a cara da cidade é de Alphaville misturado com Alabama. No horizonte um deserto estranho, na cidade pseudo-urbanizada nada pra fazer. Clima de cidade de interior. Troque o mato pelo deserto, tá feita a mudérrna Beer Sheva.
Minha tia é professora de Ensino Médio, num país que apesar de ter uma educação respeitável, paga menos ao professor que ao lixeiro (eles fizeram greve quando eu estava lá!), e tem um índice de violência escolar que lembra Columbine. Mas é uma professora amiga. Na casa dela eu me sentia quase numa tenda beduína. Passava o dia inteiro me oferecendo café. Talvez por isso o Kunkun (canecas elétricas pra se esquentar água) seja tão necessário quanto uma geladeira numa casa israelense. E vai dizer que num são um povo do deserto? Certo, é um café fantástico. Ora Café Turco, ora Nescafé com leite que vira espuminha, ora só um chazinho. Mas esse hábito de servir bebida o tempo todo é no mínimo curioso.
Certo, minha tia me mimou absurdamente e me deu de presente um Kunkun! E eu gosto pouco de ser mimado!
Mas minha boa referência de Beer Sheva foi meu primo Tommy. Porque ele tem quase minha idade, porque ele não está mais no exército, porque ele não tinha nada a fazer além de assistir aulas na Mechiná (cursinho pré-vestibular israelense). Algumas vezes saímos junto com o irmão menor dele, de vinte e dois anos, que está fazendo um extra na aeronáutica, pós-serviço militar, perto de Eilat. Mas na maior parte das vezes saí por Beer Sheva com o Tommy.
Na primeira noite em Beer Sheva vamos pra um Pub. Interessante é que a idéia de Pub lá é fazer um bar com cara de beira-de-estrada americano, que só serve a fantástica e lamentável cerveja israelense. E o Tommy é o cara que conhece metade da cidade. Sentamos no bar e por lá ficamos por umas duas horas. Enquanto falávamos de Friends, South Park e American Pie ele balançava o copo pra cada amigo de infância que chegava no Bar.
O lugar que o Tommy adora em Beer Sheva é uma pizzaria suja com jeito de Soup Nazi chamada Joe's. Uma pizza quadrada, do lado de uma loja de conveniência onde trabalha durante toda a madrugada o melhor amigo dele. E o amigo dele gosta de Jamiroquai e Jazz, e jazzbeats e todas as outras coisas que eu deixei paradas em baixo da minha mesa e no meu computador. Esse era o programa de fim-de-noite de Beer Sheva.
Numa outra noite ele me leva a uma house party na casa de dois amigos. Gente vomitando na cama do dono da casa, gente dançando trance na sala, gente tomando vinho barato. Eu tomei Arak e fiquei fazendo papel de embaixador do Brasil. Sempre tem em Israel uma israelense pra falar "Eu amo muito Brrazil! Saudade!". Como todas as noites, acabou no Joe's.
Na minha última noite ele me leva ao que ele chama de "pick-up bar". Um pick-up bar é um lugar com um balcão gigante que ocupa a maior parte do espaço, um monte de bancos em volta do balcão e gente andando de um lado pro outro. Beber e olhar. Não muito divertido, mas o Tommy conhece metade da cidade, como eu já falei. E quando ele me apresentava como um macaquito destemido que migrou da floresta, as pessoas deviam ficar um pouco desapontadas por eu não parecer em nada com o ronaldinho gaúcho ou um mestre de capoeira, moreno e sarado. Belo começo de conversa!
E o Tommy, voltando desse "pick-up bar" definiu bem Beer Sheva - Sabe, Beer Sheva é mesmo uma cidade de Stoners. Num tem nada mesmo pra fazer e as pessoas ficam mesmo é chapando em casa.
Um verdadeiro approach pós-moderno à solidão do deserto.