Manhã depois de Yom Kippur, Lyca, Taty e eu nos encontramos no centro do quarteirão judaico da cidade velha de Jerusalém. As mochilas delas eu deixo no Tio Reuven e de lá atravessamos o caos delicado do Shuk Àrabe em sua parte não-turística. Cruzamos o portão de Damasco e estamos na Tachaná Merkazit de Jerusalém Oriental , na verdade uma outra Jerusalém.
No ônibus 18, que faz Jerusalém-Rammalah , somos os únicos estrangeiros e as blusinhas com bermudas fazem um contraste pesado com o véu da universitária palestina. "Ele não de olhar!". Não Taty, não é encarando que a gente se resolve por aqui. Forço o sorriso amarelo e começo minha aprasentação turístico-trouxa-brasileiro . E já vemos agora o muro da Cisjordânia, que vai ficar ao nosso lado por vários quilometros. As meninas já estão perplexas, sacam dezenas de fotos e logo os colegas do ônibus começam a falar do muro. O menino de vinte- e-poucos-anos, bigode ralo e dentes podres, segurança da mesquita de Al Aqsa, fala em tom sério "fica tranqüilo, a gente ainda vai derrubar esse muro". Derrubar pra que?
Mas logo chegamos a Rammalh. E, ao contrário dos últimos meses, é um dia cinza. A comparação com o clima de barbárie da "25 de março " vem na hora . Só pra piorar acabamos de descobrir que era pleno Ramadã, ou seja, restaurantes fechados e policiamento ideológico ostensivo nas ruas. Afinal, é uma descortesia enorme comer em frente a quem está passando o dia em jejum.
Algumas horas pelas ruas e os posters de mártires pelas ruas assustam. Um pouco de compras é inevitável. Rammalah é 25% off em tudo. Mas é um outro país, outra cultura. Não pro dinheiro. Em Rammalah tem outlet da Fox e chocolate do Kibutz Yotvava no supermercado.
Mas o tempo passa. Já andamos por quase 3 horas e a fome bate. E com a fome vem o mau-humor. Pensamos em mudar de cidade. Hebron, Belém ou Nazareth? Qualquer uma, desde que tenha comida. E a estação das lotações de Rammalah é outro buraco sujo e escuro. Assustadora . É lá que descobrimos que qualquer uma dessas cidades está a pelo menos uma hora e meia de distância. Mudamos de idéia: a fome é grande, a paciência não. decidimos nos virar por aqui mesmo , de qualquer jeito .
É nessa hora que entramos numa vendinha e antes de mais nada perguntamos pro dono do estabelecimento se poderiamos comer lá mesmo. " Já que vocês perguntaram...". Almoço é então pringles em migalhas, polenguinho e suco de laranja nos fundos do supermercado. Quase uma atividade subersiva. Caiu maravilhosamente bem e nos turbinou o humor.
Já que estamos aqui, vamos fazer o que há pra fazer aqui. Vamos então visitar o que há pra visitar: a Ab'Mukata, o QG da Autoridade Nacional Palestina (ANP), onde viveu e agora está enterrado Yasser Arafat. Não que tenha alguma coisa lá, o local inteiro está em obras. Resta agora um outdoor com a foto do bom velhinho e dois soldados escoltando uma placa memorial no chão. Explica o porta-voz da ANP que ali será construido um memorial, uma mesquita e um museu. O primeiro museu da Palestina. Segundo ele, o outro museu que eles tentaram construir em Gaza, fora de pronto bombardeado por Israel. Engatamos mais conversa com essa figura que só passava por ali. Nos apresentamos , a Lyca fala sobre trabalho voluntário . Ele ouve interessado, pede para marcarmos uma reunião num outro dia e se desculpa pela pressa - culpa do Ramadã.
Da Ab'Mukata vamos para um restaurante de turista, uma das poucas coisas abertas que o nosso motorista nos apresenta. o restaurante, o PRONTO Bar & Cafe, é tocado por uma dessas figuras que já fez de tudo na vida agora resolveu sossegar cuidando do seu boteco e conversando com todos os clientes.
Nem precisa falar que esse café, em pleno Ramadã, virou o point de todo e qualquer estrangeiro. Do pessoal das ONGs ao altos funcionários europeus com seus contratos de milhões de dólares, todos estão lá e naquela tarde todos se sentaram na nossa mesa.
Nosso primeiro convidado, junto com a caneca de cerveja palestina TABYEH, é um ativista do PEACE FIGHTERS. Veio com seu laptop e o ânimo do Coelho da Alice. Dizia o tempo todo "eu não tenho tempo". Pede para marcarmos uma reunião e...
Logo depois vem um senhor de não mais de 60 anos, blazer, camisa de lã linho, calça jeans e um brilhante sapato preto. A verdade é que eu fui pescá-lo na mesa ao lado onde ele elegantemente saboreava um peito de frango e degustava uma taça de vinho. Quase quinze anos de viagens à Palestina fazendo contratos de Saneamento Básico entre a ANP e uma empresa norueguesa. Ele é a grana em meio ao caos, sofisticadíssimo, elegante e gentil. Ele é aquela boa carinha que o hamburger gostaria de ter. Morra de inveja Ronald McDonald!
Depois é a vez de aparecer por lá meu amigo Kevin, que já ligara algumas vezes. Kevin é um rapaz de vinte e oito anos, corpo sarado e cabelo curto que eu conheci quando voltava da Jordânia, na fronteira com Israel. Ele trabalha pro governo americano dando grana pra rádios piratas pararem de ser financiadas pelo Hamas e falarem mal do tio sam. Pra mim ele tem a maior pinta de Agente Secreto. Só que fazendo o que ele faz, onde ele faz, nem precisa ser agente secreto; ele já esta numa "Missão Impossível".
E depois de um monte de conversa e algumas TABYEHS, Kevin nos leva a um bar descoladinho em cima do único cinema da cisjordânia. E esse é o auge do contraste. Um bar com terraço, coqueiros, cadeiras de jardim, luxo! Nem parece Rammalah. Ou talvez pareça, porque Rammalah é puro contraste o tempo todo.
É ali que o Porta-Voz da ANP vai nos encontrar. Ele ligou e disse que nos encontraria nessa mesma noite. Pra quem veio só olhar... Já estávamos às nove e meia da noite num bar esperando um figurão da administração palestina pra um meeting.
Chega mohammed e discretamente sai Kevin. Nós agora já não estavamos cansados, com medo ou frio. O novo, o diferente, o estranho causam uma sensação de histeria. Tudo é inacreditável, surreal, inesperado. Tudo junto em um só dia. E é nesse clima que começa a conversa com essa figura ímpar.
Faço uma breve introdução superficial sobre nossos interesses, nossa "visão" do Oriente Médio e nossa "Consciência Social". As meninas quase aplaudem. Mas esse cara, que lutou com dezesseis anos na guerra do Libano, esteve do lado de Yassera Arafat na líbia de depois pelo mundo todo ("mais de oitenta países" diz ele) até ficarem "reféns" por três anos dentro da Ab'Mukata, cercados por dezenas de tanques israelenses não se emociona. Ódio de guerrilheiro cansaço de homem.
Ele não fala de paz ou de consciência social. Na verdade ele começa uma aula sobre a história do Oriente Médio, do ponto de vista de quem está do outro lado do muro. Começa a aula desenhando o mapa da região e dizendo "esse país aqui sempre foi chamado de Palestina". Daí ele segue a falar sobre o fim da segunda guerra, a resolução do Conselho de Segurança da ONU que dividiu as terras, a fundação da OLP no exílio e outras aventuras dele com Arafat. Testemunho de quem viveu a história lado-a-lado. A conversa se extende e quase às onze da noite eu peço pra irmos embora.
Saimos do bar e ele nos mete num taxi que só nos levaria até o checkpoint. Taxis palestinos não podem cruzar a fronteira. Em termos de experiência de checkpoint, essa deveria ser uma bem light. Onze da noite, checkpoint vazio, nada pra dar errado. A Taty sem passaporte e a Lyca sem visto só atrasariam a viagem em uns cinco minutos. Mas a estrutura era muito curiosa, as grades, as placas insanas. A Lyca decide tirar umas fotos e eu só recomendo que não ligue o flash. Já fora da estrutura militar a Lyca comete o engano e bate uma foto com flash. No mesmo instante sai da sombra uma soldada de não mais que vinte anos. Ela de com uma M16 engatilhada e nós com o cú na mão. Pede pra ver as fotos, sem tirar o dedo do gatilho. A Lyca se desculpa. Pede pra apagar a primeira foto. A Lyca se desculpa denovo. Manda ela apagar todas as fotos do checkpoint. Mais uma vez desculpas. A menina termina o trabalho dela "fotos só pra lá". Se ninguém ver então não aconteceu.
E a essa altura taxis no checkpoint também não há. Venta um frio congelante no meio daquele descampado. E nada de carro, ônibus ou taxi. Já é tarde, e é nessa hora que passa o Civic do Playboy. O nome dele? Maher. Arabe-israelense, a noiva mora em Rammalah. Ele de pronto pede pra ver nossos documentos. Diz que se os nossos papéis não estiverem certos quem se fode é ele. Perde o carro, perde os direitos e corre o risco de ser preso. Começa a contar de uma carona que ele levou uma vez. O cara sobe no carro e nem cinco minutos depois aponta uma arma pra cabeça dele pedindo toda a grana. Ele responde friamente pro rapaz: "vai, atira! Porque eu só tenho 300 shekels (75 dolares) no bolso. Com 200 você enche o tanque de gasolina do carro, com 100 você compra cigarros e cerveja. Foda-se atira logo!" Deve ser alguma coisa cultural ou ideológica, mas o cara não só não atirou como se desculpou. Passamos mais um mini-checkpoint, na verdade um road-block. Um soldado etíope nos trata com arrogância. Maher responde com um sorriso amarelo pra depois fazer um comentário racista sobre o soldado.
Ele nos toma de volta a Jerusalém, direto ao portão de Damasco. Mais uma vez cruzamos a cidade e dessa vez terminamos o roteiro no Kotel. As meninas ficam muito emocionadas. Ainda tenho muita coisa na cabeça. Deve ser o susto mas não consigo chorar. Coisas demais, tempo de menos. Rammalah é estragada, exótica e dificílima de digerir.

